Arquivo mensal: Agosto 2026

No limiar do sobrenatural. Comentário para os esposos. Mateus 16, 21-27

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus 16, 21-27

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!». Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».

Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida? O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus Anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».

No limiar do sobrenatural

Escrevia São João da Cruz:

«Para chegar a saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma.

Para chegar a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma.

Para chegar a ser tudo, não queiras ser coisa alguma.

Para chegar a saber tudo, não queiras saber coisa alguma.»

Pedro gostava tanto Jesus que, de algum modo, tinha-se «apropriado» d’Ele. Acreditava saber o que Jesus devia fazer para salvar Israel. Por isso, aquilo não gostou de aquilo que Jesus anunciava: não se encaixava nos seus planos.

Também nós podemos ficar presos àquilo de que gostamos, àquilo que temos, àquilo que projetamos ser ou àquilo que pensamos saber… e rejeitar o Seu plano, ficando no limiar do sobrenatural e perdendo nada menos do que a ressurreição.

O projeto de amor de Deus para o nosso casamento passa por tomar a minha cruz. E a minha cruz é também essa luta diária contra os desejos e apegos que me escravizam e impedem a comunhão com o meu esposo e com Deus, que é o Tudo.

SEJAMOS CORAJOSOS! Só Deus basta.

Transposição para a vida matrimonial:

João: Maria, estou em baixo. Todos os domingos ouço: amar o inimigo, perdoar setenta vezes sete, oferecer a outra face, dar a vida, não julgar, amar como Cristo… E eu não vivo nada disso. Parece-me ficção científica. Procuro-o, mas não consigo chegar lá. Sinto que estou a perder tudo o que é sobrenatural.

Maria: Eu percebo. A mim também me acontece. Mas lembro-me de São João da Cruz: «Para chegar ao que não gostas, hás de ir por onde não gostas; para chegar ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes; para chegar ao que não possuis, hás de ir por onde não possuis; para chegar ao que não és, hás de ir por onde não és».

João: O que queres dizer?

Maria: Que talvez queiramos chegar ao sobrenatural caminhando sempre por onde gostamos, sabemos e controlamos. E assim perdemos aquilo que Deus tem preparado para nós: precisamente aquilo que o nosso coração ainda não saboreou e de que tanto precisa.

João: E como fazemos?

Maria: E se retomássemos a oração conjugal? Começámos com muita alegria, mas acabámos por adaptá-la aos nossos gostos e critérios. Sejamos fiéis, escutemo-Lo verdadeiramente e tenhamos a coragem de aceitar aquilo que Ele nos propuser.

João: Mesmo que nos leve por onde não queremos…

Maria: Precisamente por aí.

Mãe,

ensina-nos a tomar a cruz que nos conduz ao teu Filho. Seja por sempre bendito e louvado, que com o Seu Sangue nos redimiu.


Justo e Santo. Comentário para os esposos: Mc 6, 17-29

Evangelho do dia
Leitura do santo Evangelho segundo São Marcos 6, 1729
Naquele tempo, o rei Herodes mandara prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, que ele desposara. Porque João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. Mas chegou o dia oportuno, quando Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete aos grandes da corte, aos oficiais e aos principais da Galileia.
Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres e eu to darei.» E acrescentou, jurando: «Dar-te-ei tudo o que me pedires, nem que seja metade do meu reino.»
Ela saiu e perguntou à mãe: «Que hei de pedir?» A mãe respondeu: «A cabeça de João Batista.» Voltando a entrar apressadamente, fez o seu pedido ao rei, dizendo: «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Batista.» O rei ficou desolado; mas, por causa do juramento e dos convidados, não quis recusar. Sem demora, mandou um guarda com a ordem de trazer a cabeça de João. O guarda foi e decapitou-o na prisão; depois, trouxe a cabeça num prato e entregou-a à jovem, que a deu à mãe. Tendo conhecimento disto, os discípulos de João foram buscar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro.
Justo e santo
Hoje celebramos o martírio de São João Batista, o primeiro mártir em defesa da verdade do matrimónio. A sua missão foi preparar o caminho para o encontro com Jesus, dispor os corações, e, sendo dócil à vontade de Deus até chegar a dar a vida, fê-lo chamando as pessoas à conversão e pregando a verdade em todas as situações. E isso tornou-o justo e santo.
Também nós, como esposos, somos chamados a ser João Batista para o outro, a ajudarmo-nos a preparar os nossos corações e no caminho até chegarmos ao encontro e à união com Jesus. Mas não a partir da imposição ou do controlo, porque não somos a fonte do bem do outro: a fonte de todo o Bem é Deus. Nós somos instrumentos e administradores desse Bem, chamados a acolhê-lo e a entregá-lo mutuamente.
O meu cônjuge é um dom de Deus, mas não me pertence. Amar não é possuir: quem ama procura o bem do amado e deseja agradar-lhe, respeitando a sua liberdade. O Catecismo recorda que «não há verdadeira liberdade senão no serviço do bem e da justiça» (CIC 1733). O livre-arbítrio permite-nos escolher; a Vontade de Deus mostra-nos o bem a que somos chamados. A nossa liberdade alcança a sua plenitude quando escolhemos livremente esse Bem e nos unimos à vontade amorosa de Deus.
Por isso, os esposos, que prometemos amar-nos e respeitar-nos todos os dias da nossa vida, somos chamados a viver especialmente esse respeito quando se trata de acompanhar o outro no seu caminho para Cristo, ainda que tenhamos ritmos diferentes; o casamento consiste em entregarmo-nos um ao outro, pondo os nossos dons ao serviço do bem comum, e ajudarmo-nos a crescer na intimidade com Cristo, sem sermos um travão para o outro e procurando sempre o verdadeiro bem do esposo e de toda a família.
O próprio Deus respeita a nossa liberdade e espera o nosso “sim”; também Maria, como Mãe, nos conduz até Ele sem se impor. Por isso, no casamento, somos chamados a acompanhar-nos sem sermos obstáculo, favorecendo o encontro pessoal com Cristo, cuidando da oração conjugal e caminhando juntos, cada um ao seu ritmo, ajudando também os nossos filhos a percorrer esse caminho rumo à nossa verdadeira meta: o Céu.
Transposição para a vida matrimonial:
Matilde: Simão, convidaram-me para ir a um retiro este fim de semana. Ao rezar sobre isso, sinto que Nosso Senhor o está a pôr diante de mim para me aproximar mais d’Ele.
Simão (fica em silêncio, mas por dentro custa-lhe que a esposa queira ir embora um fim de semana. No dia seguinte, depois de o rezar, diz-lhe): No início, a minha reação foi dizer-te que não. Pensei nas crianças, em tudo o que havia para fazer e em que não era o melhor momento. Mas, sendo sincero, também havia algo de egoísmo: custava-me que fosses embora e ter de ficar eu sozinho.
Matilde: Ah, que querido Simão! Agradeço imenso que mo tenhas dito. Eu também não te quero impor nada. Quero discerni-lo contigo, porque aquilo que Deus quiser para mim tem de ser também um bem para o nosso casamento e para a nossa família.
Simão: Foi isso que depois vi na oração. Tu és um dom de Deus para mim. Portanto, se Nosso Senhor te está a chamar a este encontro, eu não quero ser um obstáculo. Amar-te é querer o teu bem e respeitar a tua liberdade, e eu amo-te, Matilde.
Matilde: Obrigada. Eu também te amo e, se quero ir, é para me encher mais de Deus, não para me afastar de vocês. Quero voltar com o coração mais cheio d’Ele para te amar melhor a ti e aos nossos filhos.
Simão: Então vai descansada. Eu fico com as crianças e apoio-te. Compreendi: se Ele te quer oferecer algo, isso também se pode tornar um presente para todos nós. Vai encher-te e depois enche-me de bem com muitos beijos e carinhos… hahaha.
Matilde: Hahaha… assim farei, meu amor. Muitíssimo obrigada, ajudas-me muito a preparar o caminho para Nosso Senhor: não nos possuirmos nem nos travarmos e, juntos, aproximarmo-nos mais d’Ele.
Mãe,
Ensina-nos a ser verdadeiramente livres, escolhendo sempre o bem e a vontade de Deus, dizendo-Lhe sempre que sim, com um coração manso e humilde como o Teu. Bendita e gloriosa sejas, Mãe! Louvado seja para sempre o Senhor!

Estar em Graça. Comentario para os esposos: Mateus 25,1-13.

 
Evangelho do dia:
Evangelho segundo São Mateus 25,1-13.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens, que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do esposo.
Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes.
As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo,
enquanto as prudentes, com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias.
Como o esposo se demorava, começaram todas a dormitar e adormeceram.
No meio da noite, ouviu-se um brado: “Aí vem o esposo; ide ao seu encontro”.
Então, as virgens levantaram-se todas e começaram a preparar as lâmpadas.
As insensatas disseram às prudentes: “Dai-nos do vosso azeite, que as nossas lâmpadas estão a apagar-se”.
Mas as prudentes responderam: “Talvez não chegue para nós e para vós. Ide antes comprá-lo aos vendedores”.
Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo. As que estavam preparadas entraram com ele para o banquete nupcial; e a porta fechou-se.
Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram: “Senhor, senhor, abre-nos a porta”.
Mas ele respondeu: “Em verdade vos digo: não vos conheço”.
Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».
Estar em Graça.

Ao lermos esta parábola, podemos pensar que as virgens prudentes deveriam ter deixado parte do seu azeite às insensatas. Humanamente, podemos sentir «pena» dessas cinco virgens distraídas que deixaram para trás a reserva de azeite e que responderam ao chamamento do noivo sem estarem devidamente preparadas.  Mas o Senhor dá-nos aqui um ensinamento muito profundo: as virgens prudentes representam a atitude do crente que vive com o coração pronto para a vinda de Cristo, e essa atitude é pessoal e intransferível, tal como a Fé e a Graça.  Vemos assim a importância de viver na Graça, preparados para o encontro com o Senhor, que nunca sabemos em que momento irá ocorrer. Por isso, esposos, estejamos preparados! Recorramos frequentemente aos sacramentos, especialmente à Confissão, à Eucaristia e ao nosso Sacramento do Matrimónio, no qual a Graça se torna presente em cada ato de doação e acolhimento. E aprofundemos a nossa relação conjugal e com o Senhor na oração conjugal e pessoal. Assim, estaremos preparados e vigilantes no momento em que o Esposo chegar.

Mãe,

Tu és o nosso exemplo de fé e humildade; ajuda-nos a perseverar para que, no dia em que o Senhor nos chamar, estejamos com a nossa lamparina cheia do melhor azeite. Bendito seja o nosso Senhor no Santíssimo Sacramento do Altar!


Estar atentos. Comentario para os esposos: Mateus 24, 42-51

Leitura do Santo Evangelho segundo S. Mateus 24, 4251

Naquele tempo, disse Jesus aos discípulos ” Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Ficai sabendo isto: Se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a casa. Por isso, estai também preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que não pensais. Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há de confiar-lhe todos os seus bens. Mas, se um mau servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor está a demorar’, e começar a bater nos seus companheiros, a comer e a beber com os ébrios, o senhor desse servo virá no dia em que ele não o espera e à hora que ele desconhece; vai afastá-lo e dar-lhe um lugar com os hipócritas. Ali haverá choro e ranger de dentes.”

Estar atentos.

O Senhor não nos pede para adivinharmos quando virá, mas para que Ele nos encontre a amar. É um convite a viver em vigilância, fidelidade e responsabilidade — não a partir do medo, mas do amor ao Senhor que vem. A melhor preparação para a Sua vinda é a fidelidade nas pequenas coisas: uma palavra amável, um perdão oferecido, um serviço realizado com alegria.
Velar significa não permitir que a rotina, o egoísmo ou a comodidade arrefeçam o amor, mas permanecer atentos às necessidades do outro e disponíveis para a graça de Deus. No matrimónio, essa vigilância não consiste em esperar um acontecimento extraordinário, mas em estar atento ao coração do cônjuge.
O Senhor vem ao nosso encontro na necessidade do outro: num cansaço que pede compreensão, num silêncio que esconde uma ferida, num pedido de ajuda ou numa oportunidade para perdoar. O “servo fiel e prudente” é o esposo ou a esposa que não deixa de cuidar do amor recebido. É quem não espera sentir-se inspirado para servir, mas fez do serviço um estilo de vida.
A fidelidade matrimonial constrói-se no quotidiano, quando ninguém vê e parece que o esforço passa despercebido. Corremos o risco de pensar: “O meu senhor está a tardar”. No dia a dia do matrimónio, isto acontece quando deixamos de cuidar da relação porque acreditamos que haverá sempre tempo para falar, pedir perdão, rezar juntos ou ter um gesto de carinho. Pouco a pouco surge a rotina, a indiferença e a busca do próprio interesse. O coração adormece e o amor perde força.
Cristo convida-nos hoje a permanecer despertos. Cada dia é uma oportunidade para amar como Ele ama. Cada gesto de entrega prepara o nosso coração para O encontrar e fortalece a união matrimonial. A melhor forma de esperar o Senhor é que Ele nos encontre a amar-nos, a servir-nos e a caminhar juntos rumo à santidade.

Transposição para a vida Matrimonial

Mónica: Raúl, já levamos várias semanas com muita carga de trabalho e parece que nem temos tempo para falar.

Raúl: Um momento, Mónica, tenho de responder a uma mensagem no telemóvel e já falamos um pouco.

Mónica: Estás a ver? Parece que o telemóvel é o mais importante, o melhor refúgio para não quereres ver como nos estamos a afastar.

Raúl: Tens razão, Mónica. Vou já deixar o telemóvel. Eu também tenho notado isto e não quis dar o primeiro passo para tentar resolver este momento difícil. Deixei-me levar pelo meu egoísmo, até pensando que tu nem te apercebias.

Mónica: Não te preocupes, eu também me deixei levar e não fiz grande coisa para tentar aproximar-me de ti. Refugiei-me no trabalho e, quando chegava a casa, o telemóvel também era uma grande desculpa.

Raúl: Esta manhã, quando tive um momento para ler o Evangelho do dia, tocou-me bastante. Percebi que andava há algum tempo à espera que fosses tu a dar o primeiro passo, porque só me olhava a mim. Vim para casa com a intenção de mudar e a primeira coisa que fiz foi pôr o telemóvel à tua frente.

Mónica: Eu também procurei um momento para rezar o Evangelho e apercebi-me de algo parecido ao que me estás a dizer. Vamos começar. Como correu o teu dia?

Raúl: És maravilhosa. Que te parece se agora nos dedicarmos juntos às coisas da casa, pusermos os miúdos a dormir e depois tivermos um tempo só para nós, para partilharmos o que trazemos no coração e, já agora, recuperarmos o nosso momento de oração?

Mónica: Parece-me a melhor forma de recomeçar. Assim conto-te tudo o que tenho andado a meditar no coração.

Raúl: Estou desejoso que chegue esse momento. Deixei-te sozinha nos últimos dias e está a custar-me muito mais do que parece. Vou começar a arrumar a cozinha e a preparar o jantar.

Não aconteceu nada de espetacular. Simplesmente um dos dois decidiu velar pelo amor em vez de esperar que o outro desse o primeiro passo. E assim foi como o Senhor os encontrou a serem um matrimónio fiel nas pequenas coisas.

Mãe

Ajuda-nos a ser um matrimónio fiel nas pequenas coisas de cada dia e a velar para que o amor de Deus reine na nossa vida. Glória a Deus.


As aparências. Comentario para os esposos: Mateus 23, 27-32

Leitura do Evangelho segundo São Mateus 23, 27-32

Naquele tempo, disse Jesus: «Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a podridão. Assim sois vós também: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas e ornamentais os túmulos dos justos; e dizeis: ‘Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido cúmplices na morte dos profetas’. Assim dais testemunho contra vós mesmos, confessando que sois os filhos daqueles que mataram os profetas. Completai então a obra dos vossos pais».
Palavra da salvação.

As aparências

O Senhor leva-nos, repetidamente, a olhar para o interior do nosso coração. A imagem dos sepulcros caiados é forte, mas é também um ensinamento para nós. O problema não é ter feridas, fraquezas ou pecados; todos os temos, mas enquanto os reconhecemos e lutamos para não pecar, continuamos a caminhar em direção a Deus. O perigo começa quando deixamos de combater o pecado e fazemos as pazes com ele. Primeiro caímos; depois justificamo-lo: «Não é assim tão grave», «eu sou assim», «toda a gente o faz». Pouco a pouco habituamo-nos a viver com ele e começamos a escondê-lo, preocupados em que não se note e que os outros não o vejam. É aí que começa a hipocrisia: maquilhamos o mal por fora, enquanto deixamos que ele se instale por dentro. São Paulo adverte-nos: «Que o pecado não reine em vós» (Rm 6, 12). Porque o pecado a que damos espaço acaba por querer ocupar o trono. Por isso, precisamos da humildade para abrir e entregar as nossas feridas a Cristo: o que se reconhece pode ser curado; o que se esconde, endurece-nos. Também no casamento podemos habituar-nos a pequenas formas de egoísmo, dureza ou rancor e acabar por justificá-las. O que é que Jesus encontra no meu coração quando ninguém me vê? Há algo que já não me preocupa mudar? Jesus não quer que pareçamos limpos por fora; Ele quer tornar-nos puros de coração.

Transposição para a vida matrimonial

Filomena: Lá estamos nós a discutir, outra vez,  pelo mesmo assunto…

Sérgio: Olha, já sabemos que somos sempre assim… zangamo-nos, trocamos algumas palavras desagradáveis e depois passa… as «discussões normais» de qualquer casal.

Filomena: Discussões normais? Olha que isso preocupa-me, porque normalizámos estas discussões… já andamos assim há tanto tempo que nos habituámos.

Sergio: Tens razão, começámos a aceitar uma coisa que sabemos que não devia acontecer. Só nos preocupamos se os miúdos, os amigos ou a família cá estiverem.

Filomena: Bom, sabes que mais? Precisamos de reconhecer o nosso mal, porque ninguém procura um médico para uma ferida que quer esconder. Acho que isso é o mais perigoso. Temos de recorrer ao Senhor, precisamos da Sua graça e precisamos de iniciar um caminho de conversão no nosso coração.

Mãe,

Quando nos habituarmos às nossas fraquezas, desperta o nosso coração e leva-nos de novo a Jesus. Bendita sejas Querida Mãe!